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terça-feira, 14 de maio de 2013

REPASSANDO DO FACEBOOK

Desabafo de um colega médico. Copiei e colei com sua autorização:

"Escrevi esse desabafo há pouco, no mural de mais um amigo que resolveu descascar os médicos no seu perfil do facebook, em virtude desse debate sobre a importação de médicos cubanos... Deixei no meu perfil pra que aqueles que não são da área possam botar um pouco a mão na consciência... Vou substituir o nome do cara do início do texto, o resto vai na íntegra:
"Fulaninho, eu sou membro dessa categoria que você, com extrema classe, disse não respeitar. Discordo veementemente do modo esquerdista de ver o mundo, mas tento não deixar isso influenciar em qualquer conversa, e não pretendo fazer isso agora, mas peço que reflita sobre o que vou dizer.
Não acredito que os médicos cubanos sejam solução. Nem os espanhóis, nem portugueses, nem americanos, suíços, ou até mesmo brasileiros, extra-terrestres ou os mais belos anjos. O problema é estrutura. Digo isso com conhecimento de causa, visto que eu trabalho e trabalhei no SUS nos últimos 4 anos em que estive formado. De que adiantará um médico em qualquer localidade que seja, quando não se possui o MÍNIMO para trabalhar? Medicina é mais que estetoscópio e conversa. É saneamento básico, é educação, é leito hospitalar, é exame laboratorial, é ultrassonografia, é tomografia, ressonância, é UTI, centro cirúrgico, é fisioterapia pós-operatória... dentre outros. Eu já trabalhei em vários interiores, mesmo sendo membro dessa categoria "corporativista e de reserva de mercado" (em suas palavras). O meu primeiro paciente, o primeiro que eu vi na minha frente como médico, em uma USF a 400 km de Recife, possuía um quadro de icterícia obstrutiva, e estava ali, na minha frente, com dor e amarelo da cabeça aos pés. A conduta correta seria interná-lo pra investigar o que estava acontecendo. Falo com a minha enfermeira, ela diz que isso não é possível. Não havia leitos para alocá-lo, muito menos exames a serem realizados. Medicação no posto? Paracetamol. O tylenol que você toma. Consegui, a duras penas, pedindo favor pra amigo residente na capital e transporte de CARONA, levar o pobre coitado pra Recife, onde foi realizada uma tomografia que constatou um tumor de pâncreas. Eu gostaria de saber o que o colega cubano, em locais mais inóspitos ainda, poderia ter feito. Porque nem medicação pra deixar o cara confortável em casa dava pra arrumar. E você se vira nos 30, tentando, de alguma forma, ajudar o cara, e ainda morrendo de medo de levar um processo nas costas, porque ninguém quer saber se você tinha ou não condições de trabalho. Tem que fazer feito o Harry Potter e fazer as coisas acontecerem em passe de mágica. Isso foi UM paciente. Na mesma manhã, atendi mais 19. Doente no interior não tem só hipertensão e diabetes. E mesmo quando o problema são as doenças mais básicas, elas complicam. Acidente vascular encefálico, pé diabético, crise hiperosmolar, infarto agudo do miocárdio... nada disso vai ser resolvido com "tome este comprimido duas vezes ao dia e retorne em duas semanas". 
Gostaria também de salientar que não são fornecidas, na grande maioria, as mínimas condições para que se realize um atendimento de qualidade. Dos diversos empregos que tive (mudei de alguns, porque levei CALOTE de prefeitura), em apenas UM eu tinha consultório, com uma porta e uma maca, que dava pra examinar alguém decentemente. Em TODOS OS OUTROS, trabalhei atendendo gente em varanda de casa (com dois cachorros que viviam puxando a barra da minha calça no meio do atendimento - muito divertido, queriam brincar, mas eu tinha que trabalhar), sala de aula em escola (dividindo o momento de atendimento médico, confidencial e sigiloso, com a turminha aprendendo o ABC), e até mesmo uma DESPENSA de um 1,5 metro quadrado, em que só cabia eu mesmo, sentado numa cadeirinha no escuro, escutando o coitado do paciente, de pé, na porta. Vale relatar que todas essas referências que fiz quantos aos meus "consultórios" referem-se a cidades a não mais do que 100 km de distância de Natal. Quiçá outras localidades. Pra conseguir exame de sangue? 2, 3 semanas de atraso. Ultrassonografia? Vixe, um mês. Tomo? Ressonância? Mais fácil acabar a seca no sertão. Por melhores que sejam as intenções da atuação na medicina preventiva, caro Daniel, pessoas adoecem. Câncer acontece. Infarto também. Fratura. Pneumonia. Crise asmática. Pé diabético, AVE, parto complicado, pré-eclâmpsia.
Plantões de emergência em interior? Tente realizar uma reanimação de parada cardíaca, quando você sabe o que fazer, e o monitor dos dois desfibriladores não funciona. Ou então transferir um paciente com um acidente vascular encefálico hemorrágico, entubado, em uma ambulância que nada mais é que uma FIORINO, passando três horas debruçado em cima dele, fazendo a ventilação mecânica e balançando de um lado pra outro na "caçamba" da "ambulância". Sabe o que aconteceu com o pobre coitado? Faleceu... Porque quando chegou na unidade de referência, havia mais 8 pacientes com quadro similar, ou piores no hospital de referência, e não existiam meios para fornecer o tratamento necessário àquele doente. E você faz tudo isso, passa horas tentando salvar o cara, pra saber que o sistema não te ajuda. E no fim de tudo, ainda arrisca levar um processo que vai te custar até as calças, porque a família não quer saber de nada disso. Só quer a compensação. Cada doente que eu atendo em condições inóspitas para a prática da minha profissão, é um risco que eu corro. CADA UM. Se eu deixar de diagnosticar qualquer coisa, a culpa é minha. É erro médico. E vocês, que estão do outro lado, não querem saber de nada, só querem enfiar a porrada. Manda um engenheiro projetar um prédio de 50 andares com um lápis e uma régua, sem transferidor. E fala pra ele que os tubos não podem ser Tigre. Que a fiação elétrica não pode ser aterrada. Que faltou dinheiro pra comprar a argamassa e ele vai ter que se virar com barro. E pergunta pra ele se ele quer trabalhar assim. 
Os cubanos, pelos dados veiculados pelo governo cubano, atuam na medicina preventiva de forma adequada. Mas quer saber? O brasileiro também sabe medicina preventiva. Eu paguei várias cadeiras na faculdade sobre isso, e até que estudei direitinho! O que falta não é o médico. É saneamento. É educação. É orientação alimentar. É alimento de forma geral. É água. Profissionais nós temos de sobra, todos em situações empregatícias aberrantes, não sendo regidos por CLT, e que adorariam um plano de carreira nos moldes do judiciário, pra ter estabilidade de vínculo empregatício! 
Em qualquer país que não possua um acordo de revalidação de diplomas entre suas instituições de ensino, é pré-requisito para a prática responsável a comprovação de que o profissional esteja APTO a praticar aquela função no país que pretenda residir. Isso não é exclusivo aos cubanos, é pra QUALQUER médico que queira praticar a medicina no Brasil, seja formado na ELAM ou em Harvard. Quem fiscaliza a minha profissão e julga o erro médico é o Conselho de Medicina, federal e regional. Se os cubanos que vierem não forem regidos pelos conselhos, quem irá fiscalizá-los? 
Tento ver com alguma inocência os argumentos que a sociedade profere quando chama minha categoria de "mercenários" e outros adjetivos piores ainda, porque sei que é a mesma coisa de chamar todo político de "ladrão". É generalização por uma figura folclórica.
O raciocínio me foge um pouco, mas pra terminar, visto que é tanta coisa que fica difícil colocar em palavras, convido você, e quem você quiser trazer, a passar um mês me acompanhando e a outros colegas médicos que trabalham no SUS. A gente não precisa ficar só nos locais que trabalhamos não, visto que eu estou abandonando os meus plantões públicos remunerados (em que atendo em média 60 doentes ortopédicos - o limite pela OMS é 36. A grande maioria com queixa ambulatoriais, exigindo atestados, que deveriam ser resolvidos na USF, mas procuram a emergência e a deixam congestionada por pura falta de educação e não saber pra q se presta uma emergência hospitalar). Quando tiver em Natal, posso te levar pra conhecer os locais que eu trabalhei no interior, pra que você possa perceber o motivo pelo qual o médico brasileiro não "interioriza" (falta de equipamento, laboratório, ferramenta diagnóstica, falta de vínculo empregatício, calote, processo, AMEAÇA DE MORTE - já sofri duas, nas quais o cidadão poderia ter me matado sem problema nenhum... não existia segurança no local) e tirar suas próprias conclusões. Se o problema da fome fosse cozinheira, a gente importava 6000 de Cuba também. Se o problema da educação fosse professor, trazia mais 6000 de lá. Se o problema da política são os políticos, posso importar 6000 de onde eu quiser?
Um abraço""
Desabafo de um colega médico. Copiei e colei com sua autorização:

"Escrevi esse desabafo há pouco, no mural de mais um amigo que resolveu descascar os médicos no seu perfil do facebook, em virtude desse debate sobre a importação de médicos cubanos... Deixei no meu perfil pra que aqueles que não são da área possam botar um pouco a mão na consciência... Vou substituir o nome do cara do início do texto, o resto vai na íntegra:
"Fulaninho, eu sou membro dessa categoria que você, com extrema classe, disse não respeitar. Discordo veementemente do modo esquerdista de ver o mundo, mas tento não deixar isso influenciar em qualquer conversa, e não pretendo fazer isso agora, mas peço que reflita sobre o que vou dizer.
Não acredito que os médicos cubanos sejam solução. Nem os espanhóis, nem portugueses, nem americanos, suíços, ou até mesmo brasileiros, extra-terrestres ou os mais belos anjos. O problema é estrutura. Digo isso com conhecimento de causa, visto que eu trabalho e trabalhei no SUS nos últimos 4 anos em que estive formado. De que adiantará um médico em qualquer localidade que seja, quando não se possui o MÍNIMO para trabalhar? Medicina é mais que estetoscópio e conversa. É saneamento básico, é educação, é leito hospitalar, é exame laboratorial, é ultrassonografia, é tomografia, ressonância, é UTI, centro cirúrgico, é fisioterapia pós-operatória... dentre outros. Eu já trabalhei em vários interiores, mesmo sendo membro dessa categoria "corporativista e de reserva de mercado" (em suas palavras). O meu primeiro paciente, o primeiro que eu vi na minha frente como médico, em uma USF a 400 km de Recife, possuía um quadro de icterícia obstrutiva, e estava ali, na minha frente, com dor e amarelo da cabeça aos pés. A conduta correta seria interná-lo pra investigar o que estava acontecendo. Falo com a minha enfermeira, ela diz que isso não é possível. Não havia leitos para alocá-lo, muito menos exames a serem realizados. Medicação no posto? Paracetamol. O tylenol que você toma. Consegui, a duras penas, pedindo favor pra amigo residente na capital e transporte de CARONA, levar o pobre coitado pra Recife, onde foi realizada uma tomografia que constatou um tumor de pâncreas. Eu gostaria de saber o que o colega cubano, em locais mais inóspitos ainda, poderia ter feito. Porque nem medicação pra deixar o cara confortável em casa dava pra arrumar. E você se vira nos 30, tentando, de alguma forma, ajudar o cara, e ainda morrendo de medo de levar um processo nas costas, porque ninguém quer saber se você tinha ou não condições de trabalho. Tem que fazer feito o Harry Potter e fazer as coisas acontecerem em passe de mágica. Isso foi UM paciente. Na mesma manhã, atendi mais 19. Doente no interior não tem só hipertensão e diabetes. E mesmo quando o problema são as doenças mais básicas, elas complicam. Acidente vascular encefálico, pé diabético, crise hiperosmolar, infarto agudo do miocárdio... nada disso vai ser resolvido com "tome este comprimido duas vezes ao dia e retorne em duas semanas".
Gostaria também de salientar que não são fornecidas, na grande maioria, as mínimas condições para que se realize um atendimento de qualidade. Dos diversos empregos que tive (mudei de alguns, porque levei CALOTE de prefeitura), em apenas UM eu tinha consultório, com uma porta e uma maca, que dava pra examinar alguém decentemente. Em TODOS OS OUTROS, trabalhei atendendo gente em varanda de casa (com dois cachorros que viviam puxando a barra da minha calça no meio do atendimento - muito divertido, queriam brincar, mas eu tinha que trabalhar), sala de aula em escola (dividindo o momento de atendimento médico, confidencial e sigiloso, com a turminha aprendendo o ABC), e até mesmo uma DESPENSA de um 1,5 metro quadrado, em que só cabia eu mesmo, sentado numa cadeirinha no escuro, escutando o coitado do paciente, de pé, na porta. Vale relatar que todas essas referências que fiz quantos aos meus "consultórios" referem-se a cidades a não mais do que 100 km de distância de Natal. Quiçá outras localidades. Pra conseguir exame de sangue? 2, 3 semanas de atraso. Ultrassonografia? Vixe, um mês. Tomo? Ressonância? Mais fácil acabar a seca no sertão. Por melhores que sejam as intenções da atuação na medicina preventiva, caro Daniel, pessoas adoecem. Câncer acontece. Infarto também. Fratura. Pneumonia. Crise asmática. Pé diabético, AVE, parto complicado, pré-eclâmpsia.
Plantões de emergência em interior? Tente realizar uma reanimação de parada cardíaca, quando você sabe o que fazer, e o monitor dos dois desfibriladores não funciona. Ou então transferir um paciente com um acidente vascular encefálico hemorrágico, entubado, em uma ambulância que nada mais é que uma FIORINO, passando três horas debruçado em cima dele, fazendo a ventilação mecânica e balançando de um lado pra outro na "caçamba" da "ambulância". Sabe o que aconteceu com o pobre coitado? Faleceu... Porque quando chegou na unidade de referência, havia mais 8 pacientes com quadro similar, ou piores no hospital de referência, e não existiam meios para fornecer o tratamento necessário àquele doente. E você faz tudo isso, passa horas tentando salvar o cara, pra saber que o sistema não te ajuda. E no fim de tudo, ainda arrisca levar um processo que vai te custar até as calças, porque a família não quer saber de nada disso. Só quer a compensação. Cada doente que eu atendo em condições inóspitas para a prática da minha profissão, é um risco que eu corro. CADA UM. Se eu deixar de diagnosticar qualquer coisa, a culpa é minha. É erro médico. E vocês, que estão do outro lado, não querem saber de nada, só querem enfiar a porrada. Manda um engenheiro projetar um prédio de 50 andares com um lápis e uma régua, sem transferidor. E fala pra ele que os tubos não podem ser Tigre. Que a fiação elétrica não pode ser aterrada. Que faltou dinheiro pra comprar a argamassa e ele vai ter que se virar com barro. E pergunta pra ele se ele quer trabalhar assim.
Os cubanos, pelos dados veiculados pelo governo cubano, atuam na medicina preventiva de forma adequada. Mas quer saber? O brasileiro também sabe medicina preventiva. Eu paguei várias cadeiras na faculdade sobre isso, e até que estudei direitinho! O que falta não é o médico. É saneamento. É educação. É orientação alimentar. É alimento de forma geral. É água. Profissionais nós temos de sobra, todos em situações empregatícias aberrantes, não sendo regidos por CLT, e que adorariam um plano de carreira nos moldes do judiciário, pra ter estabilidade de vínculo empregatício!
Em qualquer país que não possua um acordo de revalidação de diplomas entre suas instituições de ensino, é pré-requisito para a prática responsável a comprovação de que o profissional esteja APTO a praticar aquela função no país que pretenda residir. Isso não é exclusivo aos cubanos, é pra QUALQUER médico que queira praticar a medicina no Brasil, seja formado na ELAM ou em Harvard. Quem fiscaliza a minha profissão e julga o erro médico é o Conselho de Medicina, federal e regional. Se os cubanos que vierem não forem regidos pelos conselhos, quem irá fiscalizá-los?
Tento ver com alguma inocência os argumentos que a sociedade profere quando chama minha categoria de "mercenários" e outros adjetivos piores ainda, porque sei que é a mesma coisa de chamar todo político de "ladrão". É generalização por uma figura folclórica.
O raciocínio me foge um pouco, mas pra terminar, visto que é tanta coisa que fica difícil colocar em palavras, convido você, e quem você quiser trazer, a passar um mês me acompanhando e a outros colegas médicos que trabalham no SUS. A gente não precisa ficar só nos locais que trabalhamos não, visto que eu estou abandonando os meus plantões públicos remunerados (em que atendo em média 60 doentes ortopédicos - o limite pela OMS é 36. A grande maioria com queixa ambulatoriais, exigindo atestados, que deveriam ser resolvidos na USF, mas procuram a emergência e a deixam congestionada por pura falta de educação e não saber pra q se presta uma emergência hospitalar). Quando tiver em Natal, posso te levar pra conhecer os locais que eu trabalhei no interior, pra que você possa perceber o motivo pelo qual o médico brasileiro não "interioriza" (falta de equipamento, laboratório, ferramenta diagnóstica, falta de vínculo empregatício, calote, processo, AMEAÇA DE MORTE - já sofri duas, nas quais o cidadão poderia ter me matado sem problema nenhum... não existia segurança no local) e tirar suas próprias conclusões. Se o problema da fome fosse cozinheira, a gente importava 6000 de Cuba também. Se o problema da educação fosse professor, trazia mais 6000 de lá. Se o problema da política são os políticos, posso importar 6000 de onde eu quiser?
Um abraço""

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